
EXPOSIÇÃO VIRTUAL
PAN
DÊ
MI
CAS
A exposição Pandêmica resulta da pesquisa visual que tomou como ponto de partida o fazer arte impregnado por um olhar poético imerso numa experiência coletiva da Pandemia de COVID 19. Desse pressuposto, Graça Ramos desenvolve e compartilha o inusitado processo artístico que espelha os desafios vivenciados por cada membro da sociedade com a drástica mudança de rotinas advindas da hiper vigilância às constantes notícias ruins, a imposição do isolamento físico, bem como, pelas crises políticas, econômicas e sociais que vem instaurando em nosso viver novos vocábulos, conceitos, organismos e instituições (até então distantes), e que de uma maneira geral estabelecem novíssimas percepções de mundo, ainda em construção.
O referido conjunto de criações transcende discussões envolvendo domínio e o aparato técnico por parte da artista, para delinear-se enquanto solitário manifesto, um olhar lançando para si e para o outro neste período, exercitando o papel de “cronista de seu tempo” que revisita fatos e expõe incômodos, trazendo uma peculiar dramaticidade pictórica para pautar criativamente, temas ligados a tragédia em curso.
Inevitável não remeter a máxima de que “toda obra de arte é filha de seu tempo e, muitas vezes, mãe dos nossos sentimentos”. Esta afirmação trazida pela célebre publicação que foi lançada em (1912) pelo russo Wassily kandisky, (o desbravador do abstracionismo) e que coloca a prática artística e seu devir envoltas as dicotomias e inspirações cotidianas, sejam elas das mais simplórias às mais caóticas, reitera o seu fazer enquanto propósito, não como algo dispensável ou leviano, mas, de cunho reflexivo, inspirador, belo e incômodo que sempre contribuiu na travessia de incertezas, angústias e rupturas, como no momento em que vivemos.
A série inspirada neste novo capítulo da saga humana traz pinturas em pequeno porte com técnicas mistas (acrílicas sobre tecidos e caneta sobre papel), ressaltando o tracejar de figuras descontruídas para ornar temas abstratos. Pode-se considerar este um trabalho documental de leveza poética que envolve tons, traços e atmosferas pela ênfase a impactantes detalhes, como os distantes olhares e a dinamicidade entre cores, muitas vezes inspirando calma, silêncio, pseuda indiferença, muitas vezes angústia e pavor; e em outras, vigor, alegria e esperança, advindas da exuberância de paletas quentes que iluminam o delimitado espaço gráfico a ser preenchido pela composição, testificando que o Corona também contaminou a História da Arte.
Cristiano Silva Cardoso
Diretor do Museu Casa do Sertão
